O PRAZER DE LER E ESCREVER, É VIVER INTENSAMENTE 
O JOIO
O JOIO

 

 

Dona Lilica estava sempre na janela, chovia fazia sol estava ela firme e forte vigiando o movimento da rua. Ela é viúva e os filhos depois de casado cada um tomou o seu rumo.
As vizinhas de dona Lilica as mais antigas aquelas que tinham mais liberdades com ela, sempre perguntavam.
__Dona Lilica o que tanto a senhora faz nessa janela? Não tem mais nada pra fazer uma roupa ou louças pra lavar?
Dona Lilica que estava sempre de bom humor, ria da implicância das vizinhas e respondia:
__Minha casa está um brinco, de tão limpa que está. Só estou aqui nesta janela tomando um pouco de ar!Vamos entrar e tomar um cafezinho?
__Não dona Lilica, muito obrigada! Agora estou com muita pressa, fica para outro dia.
__E os filhos, os maridos de vocês estão todos bem? Perguntava dona Lilica querendo puxar assunto.
__Todos muito bem dona Lilica, obrigado por perguntar!
__Então, tenham um bom dia vizinhas!
__Pra senhora também, dona Lilica!
E as vizinhas iam embora deixando dona Lilica olhando um canto ao outro da rua. Ela sabia de tudo o que acontecia no bairro, ficar na janela era a sua vida.
Acordava pela manha bem cedo, fazia os afazeres domésticos rápidos e se pendurava na janela, a sua vida não tinha mais graça e nem emoções, então dona Lilica se emocionava olhando a vida dos outros pela janela de sua casa. Ela agia desta forma porque era solitária e não procurava dar um rum novo em sua vida achava que tudo o que tinha feito ao longo de sua vida bastava, agora era só desfrutar da sua aposentadoria e esperar a hora que Deus a chamasse para o céu. Era assim que dona Lilica pensava achava que já tinha dado a sua parcela de contribuição e que agora era só tomar ar fresco na janela, às vezes ficava magoada com as piadinhas das amigas quando perguntavam se ela não tinha mais o que fazer que ficar bisbilhotando a vida do outros pela janela, então ela dizia:
__A maldade estão em vocês, não fico na janela pra fazer fofocas, então uma mulher na minha idade não tem o direito de ficar em sua janela? Justificava dona Lilica ofendida.
As amigas ainda tentavam ajudá-la.
__Dona Lilica a mulherada estão todas reunidas na sede do bairro bordando panos de pratos para vender no bazar beneficente da igreja porque a senhora não vai também? Quem ajuda aos pobres, ajuda a Deus!
__Há querida, eu nunca fui boa com os bordados!
__Não tem importância, faz outras coisas! A gente papeia se distrai!
__Fica pra próxima vez, hoje estou um pouco indisposta!
__Me desculpe dona Lilica, a senhora não se cansa de ficar sempre nessa janela?
__Já sei! Acha que eu não tenho o que fazer? Ironizou dona Lilica. As pessoas dizem que eu fico na janela olhando a vida delas, mas também o que não falta é gente se intrometendo na minha, pois fique sabendo dona Maria que eu acordo muito cedo, limpo a minha casa e depois venho me distrair um pouco aqui na minha janela, não estou fazendo mal a ninguém!
__Não é isso amiga! Só acho que deveria sair um pouco desta janela, tem tanta coisa que a senhora ainda pode fazer! Se não for pela a senhora, então faça pelo próximo! Vai ser voluntária nas creches, nos hospitais, nos asilos, não imagina quantas pessoas a senhora pode ajudar!
__Não sei não dona Maria, as pessoas estão tão ingrata hoje em dia, que mesmo você ajudando só leva patada! Eu ainda prefiro ficar na minha janela observando a vida passar! Eu aqui não me aborreço e ainda me divirto olhando o movimento da rua.
__Bem amiga, o recado foi dado! Quando quiser se juntar a nos só é aparecer na sede do bairro, prometo que vai ser bem recebida. Até qualquer dia, dona Lilica!
Dona Maria se afasta apressada, tem muito que fazer no orfanato, ela também esta na mesma situação que dona Lilica, é viúva, aposentada, filhos criados porem ainda continua dando sua contribuição, usando o tempo que tem livre ajudando ao próximo. Essa boa senhora, aos 80 anos de idade é voluntaria no orfanato e ainda aos finais de semana visita os doentes no hospital levando sempre uma palavra amiga consolando o peito de um irmão amargurado. Dona Maria sai pensando: Como dona Lilica consegue agir assim? Viver só por viver, com tanto a fazer a nossa volta!
Dona Lilica sai da janela e liga a teve, aborrecida reclama! Não sei por que essa gente se preocupa tanto por eu gostar de ficar na janela, não sou de falar da vida dos outros, se eu fosse contar tudo que eu vejo através desta janela aí sim elas teriam motivo pra reclamar de mim. Triste se acomoda em sua poltrona e vai relaxando até que adormece. Em seguida se vê em uma fila enorme, não dava para identificar que lugar que estava, tudo a sua volta estava coberto pela neblina inclusive as pessoas que estavam com ela na fila porem sentia a presença forte das pessoas que lá estavam. Teve vontade de perguntar para que aquela fila? Porém sentia a voz presa. Ficou um longo tempo andando nessa fila sentindo a cabeça vazia tinha a sensação de estar dentro de um vácuo profundo até que chega em uma espécie de guichê. O homem do guichê a olha por traz dos óculos e diz:
__ É a senhora da janela?
__ Sim, eu mesma!
__ Sinto em dizer, mas acabou o seu tempo de diversão!
__ Então eu morri? Pergunta dona Lilica com voz triste.
__ Depende! O que é a morte pra senhora?
__ Sempre ouvi falar que quando a gente morre, descansa, dorme até o dia do juízo final onde Jesus Cristo vai separar o joio do trigo.
__ E a senhora, é joio ou trigo?
Dona Lilica ficou um tempo olhando o homem sem expressão.
__Como assim, senhor?
__Se você for trigo é sinal que você é uma pessoa que só fez o bem, usou o seu tempo de vida pra crescer como pessoa e auxiliar o seu próximo! Agora se você for joio, desperdiçou seu tempo deixando a vida te levar não fez nada por você nem pelo seu próximo o que te aguarda é só ranger de dentes! Deus concedeu o livre arbítrio para o homem, ou seja, o direito de escolher entre o bem e o mal, mas também esse tem a responsabilidade de colher os resultados de suas ações.
Dona Lilica acorda sobressaltada, com batidas fortes na porta.
Era dona Maria.
__Dona Lilica preciso de um grande favor! O meu filho esta muito doente precisando de mim, porém as crianças do orfanato contam com a minha ajuda!
Dona Maria nem precisa terminar a frase.
__Não se preocupe dona Maria! Vá cuidar do seu filho em paz, deixa as crianças do orfanato comigo, de hoje em diante serei sua parceira, trabalharei ao seu lado auxiliando os irmãos necessitados. Cansei de ser joio!
Dona Maria da um longo abraço na companheira, feliz por essa ter acordado a tempo de corrigir seus erros!
 
 
Dilma Lourenço Moreira
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